Ruas de Berna. Foto: Solange Mezabarba
No ano passado, um grupo de trabalho de uma das minhas turmas da Pos-Graduaçao em Design de Moda do Senai Cetiqt, fez uma pesquisa no Baixo Gavea sobre as estampas usadas pelos rapazes que circulavam por ali às segundas-feiras à noite. Numa das entrevistas, um rapaz declarou que quando está fora do Brasil, ousa um pouco mais naquilo o que veste. Esta frase me chamou a atenção porque eu mesma já me senti assim numa das vezes em que estive na Suiça. Lá sempre me sinto mais confortável para fazer determinadas combinações que aqui não ousaria fazer. E não culpem o frio. Ele é apenas um elemento mais. Na verdade, quando ando pelas ruas da Suiça, percebo que muito pouca coisa causa estranhamento aos pedestres. Na primeira vez em que estive em Zurique vi um rapaz com os cabelos tingidos como uma vaca malhada. Tive a impressão de que ele só chamou a minha atenção. Ninguém mais parecia olhar para ele, ou estranhá-lo.
Outra coisa que passa pela minha cabeça. Será que o fato de sermos estrangeiros em determinado local nos abre esta prerrogativa? Ou seja, aqui não conheço ninguém, portanto, esta combinação de meias coloridas com sandálias não afetarão a minha sociabilidade!
Neste final de ano, meu cunhado, irmão do meu marido veio passar uns dias com a gente aqui no Rio. São suiços. Minha cunhada me contou que teve dúvidas sobre como fazer as malas. E isso não tem nada a ver com o clima. Ela sabia que no verão daqui a temperatura é algo próximo da ideia que fazemos do inferno. Sua dúvida era sobre como escolher o que vestir para sair às ruas do Rio sem muito estranhamento?

Carmilla Schmidt, minha cunhada, vestida para ir à praia: saia verde, blusa com brilhinho e bem colorida. Ela me disse que escolheu trazer esta roupa porque era bem colorida, e essa era sua expectativa para uso no Rio de Janeiro. Foto: Solange Mezabarba.
Uma coisa que ela notou fortemente nas ruas de Copacabana e Ipanema, por onde mais andou, foi um estilo muito padronizado. Aos seus olhos, tudo parecia muito igual. Por outro lado, a atitude corporal das moças lhe saltou aos olhos. Eram, segundo ela, poses, caras e bocas como estivessem desfilando. Mas não desfilavam modelos e roupas, e sim, corpos. Ela me disse que até as mulheres consideradas mais “fora de forma”, pareciam muito confortáveis com seus corpos, agindo exatamente assim, com atitudes corporais muito específicas. Segundo ela, na Suiça, a atitude é uma marca mais forte do que aquilo o que se veste para uma primeira impressão. Ou seja, há toda uma gramática corporal que sinaliza seriedade e confiabilidade, independente da roupa que se usa. Carmilla percebeu que na Suiça, há uma individualidade maior na escolha das roupas – a roupa em seu país, na sua visão, traduz uma proposta individual mais fortemente. Segundo ela, como as diferenças de classe social são pequenas, os códigos buscam mostrar mais sobre a forma de pensar dos suiços em geral. Aqui, de acordo com o que observou, as mulheres se vestem de forma parecida, e se destacam pelas expressoes do corpo.
Bem, suas observações me levaram a resgatar algumas fotos que fiz em 2009 na capital suiça, Berna.

Meninas nas ruas de Berna. A da esquerda usando sapatos amarelos, legging preta e blusa de linha bordada. Foto: Solange Mezabarba

Moça usando saia preta curta, blusa de linha, com meias pretas e sapatos vermelhos, e bolsa pequena transpassada. Foto: Solange Mezabarba

Moça em cerimônia religiosa (formal): saia, blusa, meia calça até os tornozelos, sapatos azuis claros. Foto: Solange Mezabarba

Moça em cerimonia religiosa (formal): vestido azul, bolsa cor-de-rosa, meia-calça preta até os tornozelos, sandálias pretas de salto. Foto: Solange Mezabarba

As categorias de produtos relacionados com a moda identificam em alguns meios de comunicação maneiras interessantes de conquistar suas usuárias. Tradicionalmente, TV e Revistas sempre estiveram à frente nas opções dos profissionais encarregados de comunicar moda. Em minha pesquisa com mulheres da Zona Sul do Rio de Janeiro, pude identificar 3 formas de entendimento das mensagens de moda que chegam através da mídia: a pedagógica, a referencial e a persuasiva.
1. Leitura Pedagógica: na modernidade, diante de tantas opções, é muito comum haver dúvidas sobre o que escolher, como se vestir em determinadas ocasiões. Diante disso, é cada dia mais comum encontrarmos blogs e publicações impressas sobre a “a roupa certa” para o seu corpo ou para os diversos contextos onde há interações sociais.
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2. Leitura referencial: uma forma menos direta de informar sobre as opções para vestir. No Brasil, as novelas exercem forte influência nas escolhas individuais. A figurinista trabalha com os elementos que compõem os personagens, e assim, acaba desafiando a moda que circula nas revistas especializadas, e criando ali uma inspiração para as mulheres. Não por acaso, a TV Globo mantém um setor especializado em “vender” as peças “que apareceram com tal e tal personagem”. A antropóloga Heloísa Buarque de Almeida, que analisou a novela Rei do Gado em seu livro Telenovela, Consumo e Gênero, publicado pela Edusc, faz uma pequena análise sobre as personagens da novela e o figurino desejado pelas mulheres do local onde realizou seu campo, a cidade de Montes Claros em Minas Gerais. O caráter do personagem ou a avaliação negativa do comportamento em questão não atuam diretamente na opção de vestir das mulheres que se baseiam no figurino das personagens.

3. Leitura persuasiva: são os editoriais de moda publicados, principalmente (ainda), na mídia impressa. Sobre esta forma de “leitura” da moda através da mídia, a socióloga Diana Crane chama atenção sobre a representação das mulheres nas fotografias de moda através dos tempos. Em seu livro, A Moda e seu papel social (publicado pelo Senac), Crane avalia a postura e a condição em que a mulher é fotografada e o quanto a sua imagem reflete a mulher de cada tempo. Fiz um exercício parecido, observando fotografias de moda em diferenes revistas das décadas de 1960, 1970, 1980 e 2000.
3.1. Década de 1960:
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Duas imagens femininas: uma mulher mais discreta, outra um pouco mais ousada, indicando um período de transição no comportamento feminino. Comportamentos considerados trangressivos ainda pertenciam a um grupo pequeno, em parte, morando na Zona Sul do Rio de Janeiro, como, por exemplo, Leila Diniz, moradora de Copacabana, mas que causou furor em Ipanema com seu biquini usado com 7 meses de gestação.
3.2. Década de 1970:
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Uma atitude ainda mais ousada, mostrando a consolidação do comportamento mais livre da mulher. O maço de cigarros na mão sinaliza uma veia transgressora, mas não no sentido que conhecemos hoje, relacionado com a saúde e o discurso médico. Era o momento de “igualdade entre os gêneros”. Fumar ainda era um comportamento mais fortemente atribuído aos homens.
3.3. Década de 1980:
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Virou motivo de piada a forma como as modelos desta época apertavam os olhos e faziam biquinho para denotar sensualidade. Uma sensualidade, um pouco, digamos “recatada” em tempos de HIV. Como retroceder ao comportamento considerado típico feminino dos anos anteriores à pílula e à revolução sexual? Ao mesmo tempo, como lidar com o risco de uma doença que surge revestida de moralidade?
3.4. Anos 2000:
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A sensualidade feminina é mostrada através de uma mulher segura, sinalizando para o controle feminino desta sensualidade. Ela provoca a câmera com o olhar, desafiando o interlocutor.
Na atualidade as novas mídias, principalmente através dos blogueiros que atuam como cool hunters, vêm trazendo imagens diferenciadas. São pessoas comuns fotografadas sem qualquer produção, pelas ruas. Mas isso fica para um próximo post.
Depois de um longo período sem postar, voltei com a corda toda!
No início do mês estive em Sao Paulo para o lançamento do livro Consumo: Praticas e Narrativas, organizado pelas queridas Kathia Castilho e Sylvia Demetresco pela Editora Estaçao das Letras e Cores. Dele participo com um artigo sobre os percursos que fiz durante um ano entre os bairros de Copacabana e Ipanema.
O artigo trata de responder a dois questionamentos: um deles diz respeito à metodologia, ou a utilizaçao da tecnica do Percurso para observar, não o que se diferencia ou se destaca, mas o padrão, o que se percebe como normativo. Magnani (1996) faz uma abordagem sobre o percurso como forma de se impregnar dos sentidos oferecidos pelo ambiente. Foi o que procurei fazer durante o ano em que empreendi este projeto. Tentei descobrir o quão interessante a metodologia do percurso poderia ser para observar padroes de vestuário. Utilizei-me deste método para tentar elucidar outro questionamento que vinha surgindo de forma recorrente nas minhas pesquisas para o doutorado. As mulheres cariocas se vestem de forma despojadas porque vivem em frente ao mar. Bem, nao deixa de ser um vetor de consumo. Porem, minha inquietaçao era imaginar uma forma “pasteurizada” de vestir entre mulheres cariocas que moram na orla. Por isso, percorri as calçadas da Avenida Nossa Senhora de Copacabana em Copacabana e Visconde de Piraja em Ipanema.
As imagens que coletei falam por si. Há códigos diferenciados entre os dois bairros. Conforme De Certeau e Mayol (1996), sair de casa não é um ato arbitrário, mas uma pratica cultural. Não saimos às ruas de qualquer maneira, mas buscamos nos adaptar aos contextos, aos códigos locais. Não se adaptar pode ter consequencias, exatamente como Bridget Jones vestida de coelhinha na festa à fantasia que foi cancelada!
Obs.: No livro, por um engano, as legendas para as imagens de Copacabana e Ipanema estão invertidas. Fotos de Ipanema saíram com legenda de Copacabana e vice-versa.
Calçadas de Ipanema!



Calçadas de Copacabana!



Solange Riva Mezabarba








