Detalhe do quadro Las Meninas, pintado em 1656 pelo espanhol Diego Velasquez, com a infanta Margarida, filha de Felipe IV.  Museu do Prado, Madrid. 

 

Este post foi elaborado com a luxuosa colaboração de um grupo de alunas do curso de Pós-Graduação em Design de Estamparia do Senai Cetiqt: Bruna Antunes, Glenia Mendes, Cecilia Lima, Cristiane Benites, Claudia Klein.

O livro Historia Social da Família e da Criança do francês Philippe Ariès se tornou um clássico para quem estuda temas relacionados com o mundo infantil na modernidade.  Desde seu lançamento, boa parte dos trabalhos que são apresentados sobre a criança moderna tem em Ariès uma forte referência.  A primeira edição brasileira é de 1978.  Para quem estuda vestuário infantil, Ariès pode iluminar algumas questões.  Afinal é sobre este elemento uma das principais observações do historiador.  Analisando a iconografia infantil ao longo de vários séculos, Ariès percebeu que quando as crianças começam a aparecer como motivo de expressão artística, estão retratadas vestindo roupas de adultos.  Ele se refere a elas chamando-as de “adultos em miniatura”.   Um longo percurso foi necessário para que a infância existisse socialmente.  Diz o historiador que a idéia de infância, até o século XVII na Europa, estava ligada a uma relação de dependência, e, portanto, era uma idéia comum também nas relações feudais ou senhoriais.

 

As filhas de Edward Darley Boit, pintado pelo americano John Singer Sargent em 1879.  Museu de Belas Artes de Boston.

No século XX começamos a vivenciar no Ocidente a centralidade das crianças nas relações familiares.  Daniel Miller atribui esta centralidade ao enfraquecimento da figura paterna graças ao movimento feminista.  Por isso, as mulheres, como que assumindo o papel de guardiãs dos lares, já não se importam de “estragar as crianças” quando oferecem a elas maior liberdade de escolha no processo de consumo.  Aqui fica a questão: em que medida a criança hoje tem autonomia para escolher a roupa que deseja usar?  Em que medida os pais (ou as mães), que efetuam a aquisição, interferem na opção dos filhos e filhas?  Como se dá esta negociação?  Com base nos argumentos de Ariès, o educador norte-americano Neil Postman considera que, assim como houve uma “construção” da infância como a conhecemos, com um espaço social específico, incluindo a adequação das informações que recebem de acordo com a idade, e, claro o vestuário; na atualidade assistimos ao “desaparecimento da infância”, onde cada vez mais essa especificidade se desfaz.  Será que agora podemos ver novamente as crianças como adultos em miniaturas?

 

Menina com o gato.  Obra do pintor e escultor contemporâneo, o colombiano Fernando Botero, nascido em 1932.

Cinco das minhas alunas do curso de Antropologia do Consumo da Pós-Graduação em design de Estamparia do Senai Cetiqt resolveram pesquisar e observaram algumas coisas interessantes no que se refere ao vestuário para meninas numa faixa etária provável de 5 a 7 anos. “Provável” porque não houve entrevista às crianças ou aos pais, apenas a observação em um shopping no bairro da Gávea, considerado o maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Rio de Janeiro.  As imagens das crianças feitas pelas alunas não poderão ser postadas.  Mas vamos aos achados.

Apesar da predominância do rosa e outras cores claras e “alegres” no vestuário das meninas, cores sóbrias não eram raras.  A historiadora Dominique Veillon conta que a atriz francesa Simone Signoret (1921-1985) se viu diante do racionamento de lãs e da impossibilidade de escolher a cor do enxoval da criança que estava esperando durante a ocupação francesa pelas tropas alemãs na Segunda Guerra.  Ela se recusava a “vestir sua criança como um soldado”, já que a única possibilidade seria a cor cáqui.  Signoret pensava em rosa, azul ou branco.  Para ela, era incaceitável cores como o cáqui para bebês.  Bem, não estamos falando exatamente de bebês, mas percebe-se que hoje,diante da liberdade de escolha, parece não haver conflitos quanto ao uso de cores consideradas sóbrias para crianças.

Mas o que mais me chamou a atenção entre as observações das alunas foi o fato de perceberem que as estampas usadas pelas meninas não eram tão, digamos “infantis”.   Bem, o que esperaríamos de uma estampa infantil?  Provavelmente aquilo o que as alunas de Estamparia desenhariam caso fossem solicitadas a fazê-lo.  Há uns dois anos atrás, a loja Fábula de roupas infantis firmou um convênio com o Cetiqt, e os alunos do curso de estamparia desenharam padrões para eles.

 

 

Ilustração de Nancy Wollf.  Ver mais em: www.nancywollf.com

 

O que se viu foram ilustrações lindíssimas, sendo que muitas poderíamos comparar com o trabalho da ilustradora Nancy Wollf de Nova Iorque, com animaizinhos e motivos tradicionalmente relacionados com o universo infantil.  Na observação das minhas alunas no Shopping, no entanto, estavam lá padronagens como poás, listas e florais menos delicados do que se era de esperar para o vestuário infantil. 

 

 

Capa brasileira da Revista Brotoeja, editada aqui pela Rio Gráfica Editora nas décadas de 1960 e 1970.

Sobre os poás, não há muito o que comentar.  A personagem dos quadrinhos criada no finalzinho dos anos 1940, Little Dot, aqui no Brasil chamada de Brotoeja, era uma menina fascinada por bolinhas.  Ela fazia questão que todos os seus vestidos fossem de bolinhas.  Eu mesma, quando menina, tive muitos vestidinhos com este tipo de estampa.  Aqui, aparentemente, não há novidade. 

 Quanto às outras padronagens observadas, se entrarmos no site das lojas, vamos ver xadrezes e florais que bem poderiam ser usados para estampas destinadas aos adultos.  Saímos então com algumas questões que se impuseram após a observação: o que será que pais e crianças esperam para uma padronagem infantil?  Que peso tem a escolha das meninas?  Será que isso sinaliza para o fato de estarmos mesmo diante de uma “adultização” infantil, começando pelo vestuário?

 

Roupas para meninas.  Loja infantil Fábula. Imagem do site:www.portaisdamoda.com.br.

 

 

Body para meninas.  Site da loja infantil carioca Passatempo Moda Infantil. http://pt-br.facebook.com/people/Passatempo-Moda-Infantil/100000744443178